quinta-feira, 10 de setembro de 2015


CAMARO AMARELO SERIA UMA RIMA OU A SOLUÇÃO?

PROPOSITAL OU ACIDENTAL?
 

 

Esse texto é, sem sombra de dúvida, o que chega com mais estilo e potência, afinal, vamos falar de Camaro Amarelo! Antes de qualquer coisa, é válido ressaltar que estamos falando de uma das obras musicais eleitas pelo Programa de Avaliação Seriada da Universidade de Brasília para ser analisada na prova da primeira etapa do processo.  Portanto, você já sabe que se a UnB está interessada em uma produção como esta, é recomendável que você abandone seus preconceitos, agora mesmo, e se detenha nas informações e análises possíveis. E isso você confere aqui no Literatura e Mundo.

E o que diz a matriz do PAS sobre essas e as outras obras selecionadas, como Cuitelinho, Infortúnio e Vida Loka pt. II? Justamente que são:
 

Referências para o reconhecimento das pessoas do que querem ou não ser, assim, essas escolhas nem sempre se ligam a critérios musicais, mas ao que a música pode representar para si ou para o grupo social em que se inserem.

Tudo isso para proporcionar ao estudante de Ensino Médio o contato com estilos e gêneros diferentes do que ele está habituado e, consequentemente, ampliar o vocabulário cultural desse público. Por meio desse contato, juízos de valor como “não ouço RAP porque é música de bandido” podem ser evitados.

Antes de pensar no contexto sociocultural e no reconhecimento do indivíduo na sociedade, pense um pouco sobre a narrativa empregada:

Agora eu fiquei doce, doce, doce, doce.

Agora eu fiquei do-do-do-do-doce, doce.

E agora eu fiquei doce igual caramelo

Tô tirando onda de Camaro amarelo

E agora você diz: vem cá que eu te quero

Quando eu passo no Camaro amarelo.

Observe o gesto do intérprete no clipe original da música: enquanto diz que “ficou doce”, ele também faz o gesto de quem passa açúcar no corpo. Aqui, nós temos a mistura de sentidos do corpo humano, tato e paladar. Figura de linguagem? Isso mesmo! Sinestesia. Perceba, portanto, que o uso de “amarelo” e “caramelo” não se reduz a um recurso de rima, mas funciona como uma aproximação de sentidos.

Agora, sim, vamos à análise mais social. Perceba que uma das metáforas se dá de forma implícita: “agora fiquei doce”. Doce sempre atrai formigas e sempre em grande quantidade, logo, “agora vou escolher, tá sobrando mulher”. Complexo e perigoso esse assunto, e que nos leva à próxima análise.

De certa forma, já percebemos como o discurso da música envolve virilidade, poder, “masculinidade”. Isso fica ainda mais evidente quando pensamos que o eu-lírico não está de Camaro à toa, muito menos à toa é a escolha da CG para a ilustração desse contraste. Afinal, quando falamos de Camaro, falamos da potência de 406 Horsepowers, ou seja, um carro que dá conta de muita coisa, diferente da CG, que é uma moto de baixo custo, econômica e de uma potência muito aquém do Camaro. Logo, podemos dizer que a potência do carro está ligada à potência, ou à virilidade do homem para quem está “sobrando mulher”. Mais uma vez, complexo e perigoso.

Agora observe esse trecho:

 “Aí veio a herança do meu véio

E resolveu os meus problemas, minha situação

 E do dia pra noite fiquei rico

Tô na grife, tô bonito, tô andando igual patrão”

O discurso aí empregado é simples: se está de CG, não anda de grife, não é bonito, não é patrão, resumindo: não é rico. É aí que reside o ápice da nossa análise, pois percebemos que a visibilidade na sociedade moderna se dá por meio da OSTENTAÇÃO, não do trabalho.

E se você ficou se perguntando o porquê de a CG não te atrair da mesma forma que o Camaro AMARELO, lembre-se: amarelo, caramelo são cores que remontam à mais clássica referência de ostentação, o ouro. Poderia fazer um aparato de todas as civilizações ocidentais que têm apreço por esse metal e como o amarelo está associado, mas você só precisa lembrar de alguma aula do seu Ensino Fundamental na qual aprendeu o que simbolizava o amarelo na nossa bandeira. Pensando com a biologia, temos que o amarelo está associado à fome, ao apetite. Mais uma vez a referência ao paladar, afinal, se ele “é doce”, pode saciar essa fome.

Agora você já percebe o porquê do PAS estar interessado nessa letra, pois já conhece os fenômenos sociais, culturais e econômicos que estão contidos nela. Ainda que involuntariamente, todas as obras selecionadas perpassam o contexto de uma certa comunidade, grupo e cultura, de forma mais abrangente, e é isso que o Programa de Avaliação da UnB espera de você, enquanto sujeito crítico e livre de alienações preconceituosas.


 

 

Gostou do tema ou da análise? Se você é estudante do Ensino Médio e está se preparando para o PAS fique ligado nos episódios especiais voltados para a análise de obras! Assista ao vídeo, assine o canal e não deixe de contribuir com a sua crítica. Assim, crescemos juntos!

Agradecimento à assessoria de imprensa do Munhoz e Mariano......

 

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Autoria e formatação: Eurípedes Braga

Revisão e sistematização: Marina Moura




 

 


ROMANTISMO E ENEM – QUE ISSO TEM A VER?

 

 

            Já parou para pensar como o conhecimento sobre o Romantismo pode ajudar você a escrever uma boa redação no ENEM? Não? Então esse post pode ser bastante útil para você. Mas antes de adentrarmos no nosso assunto, vamos entender um pouco mais sobre o que o examinador do ENEM avalia na sua redação, em relação à competência 2.

Competência 2.b – Evite ficar preso às ideias desenvolvidas nos textos motivadores, porque foram apresentados apenas para despertar uma reflexão sobre o tema e não para limitar a sua criatividade.

Competência 2.c – não copie trechos dos textos motivadores. Lembre-se de que eles foram apresentados apenas para despertar seus conhecimentos sobre o tema.

            É, justamente, quando o texto diz “evite ficar preso”, “criatividade” e “conhecimentos sobre o tema” que entra a Literatura, pois incluí-la na sua redação é uma forte estratégia de dialogismo que pode te ajudar a pontuar na competência em questão.

            Sem mais delongas, entremos no assunto de hoje, afinal, vamos falar de Romantismo. Aqui no Brasil, essa escola se estendeu do ano de 1836 a 1881, com um período tão extenso, não é de se espantar que o Romantismo tenha rendido muitas fases, divisões e autores das mais variadas tendências. Por isso mesmo que, aqui no canal, essa escola será abordada em dois vídeos: a prosa, num primeiro momento e a poesia, posteriormente.

            É muito interessante pensarmos no Romantismo, pois, ainda que herdado da Europa, foi movimento muito bonito e que nos proporcionou algumas ideologias muito importantes, como o nacionalismo, a idealização da pátria, do índio e da natureza.
Alguns autores, inclusive chamam a 1ª geração de geração das IDEALIZAÇÕES

Como escola literária, apresentou uma infinidade de temas, autores inovadores, como Bernardo Guimarães, Álvares de Azevedo, Castro Alves, o louvado José de Alencar e a proposta ousada do pré-realista Joaquim Manuel de Macedo. Autores que apostando na inovação, acertaram muito, se consideramos como critério a existência do numeroso e limitado público burguês.

Mas a palavra de hoje é “diversidade”. E onde se situa Alencar no assunto? Simples, basta você pensar na produção artística dele, pois Alencar não se deteve em apenas um assunto. Muito pelo contrário, as temáticas alencarianas são tão diversas (urbana, indianista, histórica, regionalista) que, vistas sem uma análise minuciosa, nem parecem pertencer ao mesmo autor. Antes, pareceria incompatível pertencer ao mesmo escritor.

Além dessa diversidade interna à obra de Alencar, podemos pensar na atipicidade temática proposta por Joaquim Manuel Macedo, já mencionado, anteriormente, como o pré-realista. O ilustre de Macedo se encontra, justamente, no fato de sua proposta temática ir de encontro às mais veneradas pelo público da época, como as de Diva, Lucíola e Senhora: romances urbanos que retratavam a vida e as tramas da vida burguesa. Memórias de um Sargento de Milícias, a obra prima do autor em questão, apresenta um anti-herói malandro, nada parecido com os cavalheiros românticos de Alencar. E, detalhe: o ambiente é a favela, não o centro urbano.

Mas você nem imagina aonde queremos chegar, não é mesmo? Tudo isso foi esclarecido previamente, para que servisse de diálogo com o tema da redação do ENEM de 2007, que foi “O desafio de se conviver com a diferença”. Como textos motivadores, a prova trouxe “Ninguém é igual a ninguém” (Engenheiros do Hawaí) e “Uns iguais aos outros” (Titãs). Na música dos Engenheiros, o eu-lírico relata que, mesmo diante das mesmas situações, pessoas diferentes hão de expressar percepções e reações diferentes.

A partir disso, pense: era, ou não, possível uma tranquila associação com o Romantismo nessa redação? Pense no leitor romântico que, ao mesmo tempo que apreciava um livro do estilo de “A Moreninha”, também dava valor a “Lucíola”. Ou seja, uma história simples, com uma mera temática amorosa entre jovens sonhadores pôde, no período romântico, conviver com o assunto “prostituição”, muito complexa mesmo para os dias de hoje, o que comprova que o leitor dessa época sabia e apreciava conviver com as diferenças.

Mas se você ainda está achando que a associação não é válida, saiba que o terceiro texto motivador dessa prova foi, justamente, a “Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural” da Unesco. Pense agora na “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”, proclamada no contexto de Revolução Francesa e Romantismo francês, e perceba que a luta pela diversidade nas artes ultrapassou os objetivos iniciais e desencadearam na busca pela liberdade política, religiosa e econômica.

            Para voltar ao nosso assunto e finalizá-lo, vamos deixar a França de lado e pensar no contexto brasileiro do romantismo: um país dividido entre libertários gritando pela independência e conservadores que queriam a manutenção da colônia; entre abolicionistas e escravistas. Realmente, era um ambiente marcado pelo contraste de diferenças.

 

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Autoria e formatação: Eurípedes Braga

Revisão e sistematização: Mariana Moura




 

               


CANUDOS  - O PASSADO E O PRESENTE SE CRUZAM FRENTE AOS SEUS OLHOS.

 

            Você, certamente, já ouviu falar sobre a história bíblica do dilúvio, sobre a construção do Lago Paranoá e a questão de Belo Monte. Histórias que, aparentemente, não possuem nenhuma conexão, mas que, aqui no canal Literatura e Mundo, você poderá perceber como elas se conectam e como podem mudar a sua visão de mundo.

Para entrarmos nessa discussão, falaremos, hoje, de uma grande obra da nossa literatura, Os sertões de Euclides da Cunha. Mas não vamos nos deter a descrições de personagens, tempo e espaço. Mais do que elementos da narrativa, hoje vamos analisar como algumas questões dessa obra nos permitem realizar leituras do nosso mundo muito interessantes. Mas deixo como sugestão, para quem se interessar a esses aspectos, a minissérie “Desejo” e, claro, o filme “A guerra de Canudos”.

O que nos interessa sobre essa obra na nossa discussão de hoje são os outros valores que ela carrega. “Os sertões” é considerado o relato mais verossímil sobre o surgimento, desenvolvimento e o massacre de Canudos. Além disso, Euclides da Cunha, impregnou a sua obra de aspectos sociológicos, antropológicos, geográficos e literários, que muito nos interessam aqui. Juntamente a “Vidas secas” e “Grande sertão: veredas”, “Os sertões” formam a tríade representativa de um grande personagem brasileiro: o sertanejo.

            Ainda que algumas linhas teóricas sejam contra a relevância de aspectos biográficos do autor para a análise de uma obra, é interessante enunciar alguns fatos sobre Euclides da Cunha, para entendermos de onde foi que veio “Os sertões”. Euclides gostava de matemática, escrevia para o jornal Democrata, teve uma carreira militar conturbada ao ponto de ser expulso, retornando mais tarde para se especializar em engenharia militar, tinha domínio das ciências naturais e, finalmente, o que mais nos interessa: foi o correspondente do Estado de São Paulo em Canudos, do surgimento à sua destruição.

            Isso já demonstra como Euclides da Cunha não era um escritor empenhado em fazer literatura, mas um jornalista correspondente. E como seus escritos ganharam tanto prestígio literário? Simples. Euclides era o homem certo, no lugar certo e na hora certa. No entanto, é válido lembrar que a visão que Euclides obteve acerca de Canudos ao final de sua jornada lá, não era a mesma do início. É preciso levar em conta o contexto em que se inseria Antônio Conselheiro e seus seguidores: a República era recém proclamada e Canudos era constituída de pessoas que reivindicavam a volta da monarquia. Logo, a imagem que Euclides construíra do povoado, antes mesmo de estar no local, era a de um conglomerado de loucos reacionários. Até porque, ele estava a serviço de uma mídia e manipulação de informações não é uma coisa só dos dias atuais.

            Mas e a obra, professor? Por que devo ler essa obra?

            Para ser sucinto, vamos fazer uma checklist dos motivos para se ler “Os sertões”

ü  Se você gosta de livros extensos: é um livro muito grande.

Se você gosta de livros ricos em expressões: Euclides da cunha tinha um jeito literário para descrever o tipo sertanejo. Expressões como titã acobreado e quasímodo-hércules, transmitem a essência do sertanejo que o autor percebeu.

ü  Se você gosta de livros divididos em volumes: “Os sertões” são divididos em três volumes: “A terra”, “O homem” e” A luta”, cada um com uma temática diferente.

ü  Se você gosta de livros descritivos: leia o volume “A terra”, lá o autor faz uma descrição geográfica minuciosa e riquíssima.

ü  Se você gosta de livros que valorizam a trama, os conflitos, como “O Senhor dos anéis”: leia o volume “O homem”.

ü  Mas se o que você procura é um livro com lutas, sangue e mortes: leia o volume “A luta”, detalhe, aqui, a descrição dos combates e das mortes é feita de uma maneira poética e verdadeira. Bem diferente das descrições artificiais que são feitas apenas para causar impacto no leitor.

Tudo isto e muito mais está contido em “Os sertões”, que é literatura. Mas você está no Literatura e Mundo, então, onde está o mundo nessa nossa reflexão?

            A primeira contextualização da obra com o nosso mundo diz respeito às profecias de Antônio Conselheiro, que muitos acreditam não passar de interpretações bíblicas, ou paráfrases de Nostradamus - médico da Renascença que praticava a alquimia e que ficou famoso por sua suposta capacidade de vidência. Mas o fato é que Conselheiro manifestava certas expressões que se aproximavam de um estilo profético como “em mil chegarás, de dois mil não passarás”, se referindo ao fim do mundo na virada do milênio, ou “cabeças vão rolar”, que inclusive virou uma expressão popular e que podemos considerar como uma profecia cumprida, uma vez que a cabeça de Conselheiro, ao final da história, vai ser motivo de grande confusão. Aproveito o espaço do blog para fazer uma correção: a cabeça do padre foi enviada para que Nina Rodrigues a estudasse, como foi dito no vídeo, mas Nina se trata de um MÉDICO, cujo primeiro nome é Raimundo.

            Mas a profecia mais conhecida do padre Conselheiro, com certeza é que mais nos interessa hoje. “O sertão vai virar mar, o mar vai virar sertão”. Já escutou? Essa já foi reproduzida até em letra de música! E do que ela fala? Sim, de uma suposta inundação. Sabe como Canudos foi destruída? Exatamente. A borracha da história é a água, e não apenas por causa desse caso isolado, mas, atualmente, no Brasil, temos pelo menos três Canudos.

            A primeira, obviamente, corresponde à original, que hoje é o que conhecemos por barragem de Sobradinho. Foi exatamente lá que, há algum tempo atrás, Conselheiro se estabeleceu com seus seguidores reivindicando direitos sobre a terra. Para pensarmos na segunda, basta saber o outro nome que levava o povoado de Canudos: Belo Monte. Autoexplicativo, não é mesmo? Mais uma vez, a água sendo utilizada para apagar a cultura de um povo “em nome do progresso”.

             E você, brasiliense? Nunca se perguntou o porquê de uma das mais antigas regiões administrativas do DF ter o mesmo nome de uma barragem que fica na Bahia? Então vamos lá. Ainda que você não tenha essa resposta, é muito provável que você saiba que o Lago Paranoá é um lago artificial, ou seja foi construído a partir de (mais) uma inundação. Acontece, que o local o qual corresponde ao Lago era onde viviam os trabalhadores responsáveis pela construção de Brasília. A Vila Amaury tem seus resquícios até hoje no fundo do Lago, você pode conferir pesquisando na internet. Mas e Sobradinho? Qual foi o intuito da construção de Sobradinho? Simples: abrigar os trabalhadores imigrantes que vinham do Nordeste, Goiás, BAHIA, obviamente, longe do centro da capital. Coincidência, não é mesmo?
 

            Agora você já pode perceber que a recorrência a alagações não é por acaso que acontecem. Apagar a história de uma cultura, de um povo, ou, no caso de Belo Monte, de uma etnia, não é tarefa fácil. Mas onde que essa estratégia foi primeiramente abordada? Punir um povo, como foi o caso de canudos, por meio da inundação é mesmo uma história inédita? Você não precisa se cristão para ter ouvido a história da Arca de Noé, não é mesmo? Agora está explicado o porquê de ser uma estratégia que funciona. Ela foi pensada pelo próprio “Todo Poderoso”. Mais uma vez: não é preciso ser cristão para conferir o quanto as leituras bíblicas influenciam o nosso inconsciente coletivo e nos fazem pensar no nosso MUNDO.

           

Autoria e formatação: Eurípedes Braga

Revisão e sistematização: Mariana Moura