CANUDOS - O PASSADO E O PRESENTE SE CRUZAM FRENTE AOS
SEUS OLHOS.
Você, certamente, já ouviu falar
sobre a história bíblica do dilúvio, sobre a construção do Lago Paranoá e a
questão de Belo Monte. Histórias que, aparentemente, não possuem nenhuma
conexão, mas que, aqui no canal Literatura e Mundo, você poderá perceber como
elas se conectam e como podem mudar a sua visão de mundo.
Para entrarmos nessa discussão,
falaremos, hoje, de uma grande obra da nossa literatura, Os sertões de Euclides
da Cunha. Mas não vamos nos deter a descrições de personagens, tempo e espaço.
Mais do que elementos da narrativa, hoje vamos analisar como algumas questões
dessa obra nos permitem realizar leituras do nosso mundo muito interessantes. Mas
deixo como sugestão, para quem se interessar a esses aspectos, a minissérie
“Desejo” e, claro, o filme “A guerra de Canudos”.
O que nos interessa sobre essa obra na
nossa discussão de hoje são os outros valores que ela carrega. “Os sertões” é
considerado o relato mais verossímil sobre o surgimento, desenvolvimento e o
massacre de Canudos. Além disso, Euclides da Cunha, impregnou a sua obra de
aspectos sociológicos, antropológicos, geográficos e literários, que muito nos
interessam aqui. Juntamente a “Vidas secas” e “Grande sertão: veredas”, “Os
sertões” formam a tríade representativa de um grande personagem brasileiro: o
sertanejo.
Ainda que algumas linhas teóricas
sejam contra a relevância de aspectos biográficos do autor para a análise de
uma obra, é interessante enunciar alguns fatos sobre Euclides da Cunha, para
entendermos de onde foi que veio “Os sertões”. Euclides gostava de matemática, escrevia
para o jornal Democrata, teve uma carreira militar conturbada ao ponto de ser
expulso, retornando mais tarde para se especializar em engenharia militar,
tinha domínio das ciências naturais e, finalmente, o que mais nos interessa:
foi o correspondente do Estado de São Paulo em Canudos, do surgimento à sua
destruição.
Isso já demonstra como Euclides da
Cunha não era um escritor empenhado em fazer literatura, mas um jornalista
correspondente. E como seus escritos ganharam tanto prestígio literário?
Simples. Euclides era o homem certo, no lugar certo e na hora certa. No
entanto, é válido lembrar que a visão que Euclides obteve acerca de Canudos ao
final de sua jornada lá, não era a mesma do início. É preciso levar em conta o
contexto em que se inseria Antônio Conselheiro e seus seguidores: a República
era recém proclamada e Canudos era constituída de pessoas que reivindicavam a
volta da monarquia. Logo, a imagem que Euclides construíra do povoado, antes
mesmo de estar no local, era a de um conglomerado de loucos reacionários. Até
porque, ele estava a serviço de uma mídia e manipulação de informações não é
uma coisa só dos dias atuais.
Mas e a obra, professor? Por que
devo ler essa obra?
Para ser sucinto, vamos fazer uma
checklist dos motivos para se ler “Os sertões”
ü Se você gosta de livros extensos: é um
livro muito grande.
Se
você gosta de livros ricos em expressões: Euclides da cunha tinha um jeito
literário para descrever o tipo sertanejo. Expressões como titã acobreado e
quasímodo-hércules, transmitem a essência do sertanejo que o autor percebeu.
ü Se você gosta de livros divididos em
volumes: “Os sertões” são divididos em três volumes: “A terra”, “O homem” e” A
luta”, cada um com uma temática diferente.
ü Se você gosta de livros descritivos:
leia o volume “A terra”, lá o autor faz uma descrição geográfica minuciosa e
riquíssima.
ü Se você gosta de livros que valorizam a
trama, os conflitos, como “O Senhor dos anéis”: leia o volume “O homem”.
ü Mas se o que você procura é um livro com
lutas, sangue e mortes: leia o volume “A luta”, detalhe, aqui, a descrição dos
combates e das mortes é feita de uma maneira poética e verdadeira. Bem
diferente das descrições artificiais que são feitas apenas para causar impacto no
leitor.
Tudo
isto e muito mais está contido em “Os sertões”, que é literatura. Mas você está
no Literatura e Mundo, então, onde está o mundo nessa nossa reflexão?
A primeira contextualização da obra
com o nosso mundo diz respeito às profecias de Antônio Conselheiro, que muitos
acreditam não passar de interpretações bíblicas, ou paráfrases de Nostradamus -
médico da Renascença que praticava a alquimia e que ficou
famoso por sua suposta capacidade de vidência. Mas o fato é que
Conselheiro manifestava certas expressões que se aproximavam de um estilo
profético como “em mil chegarás, de dois mil não passarás”, se referindo ao fim
do mundo na virada do milênio, ou “cabeças vão rolar”, que inclusive virou uma
expressão popular e que podemos considerar como uma profecia cumprida, uma vez
que a cabeça de Conselheiro, ao final da história, vai ser motivo de grande
confusão. Aproveito o espaço do blog para fazer uma correção: a cabeça do padre
foi enviada para que Nina Rodrigues a estudasse, como foi dito no vídeo, mas
Nina se trata de um MÉDICO, cujo primeiro nome é Raimundo.
Mas
a profecia mais conhecida do padre Conselheiro, com certeza é que mais nos
interessa hoje. “O sertão vai virar mar, o mar vai virar sertão”. Já escutou?
Essa já foi reproduzida até em letra de música! E do que ela fala? Sim, de uma
suposta inundação. Sabe como Canudos foi destruída? Exatamente. A borracha da
história é a água, e não apenas por causa desse caso isolado, mas, atualmente,
no Brasil, temos pelo menos três Canudos.
A
primeira, obviamente, corresponde à original, que hoje é o que conhecemos por
barragem de Sobradinho. Foi exatamente lá que, há algum tempo atrás,
Conselheiro se estabeleceu com seus seguidores reivindicando direitos sobre a
terra. Para pensarmos na segunda, basta saber o outro nome que levava o povoado
de Canudos: Belo Monte. Autoexplicativo, não é mesmo? Mais uma vez, a água
sendo utilizada para apagar a cultura de um povo “em nome do progresso”.
E você, brasiliense? Nunca se perguntou o
porquê de uma das mais antigas regiões administrativas do DF ter o mesmo nome
de uma barragem que fica na Bahia? Então vamos lá. Ainda que você não tenha
essa resposta, é muito provável que você saiba que o Lago Paranoá é um lago
artificial, ou seja foi construído a partir de (mais) uma inundação. Acontece,
que o local o qual corresponde ao Lago era onde viviam os trabalhadores
responsáveis pela construção de Brasília. A Vila Amaury tem seus resquícios até
hoje no fundo do Lago, você pode conferir pesquisando na internet. Mas e Sobradinho?
Qual foi o intuito da construção de Sobradinho? Simples: abrigar os
trabalhadores imigrantes que vinham do Nordeste, Goiás, BAHIA, obviamente,
longe do centro da capital. Coincidência, não é mesmo?
Agora
você já pode perceber que a recorrência a alagações não é por acaso que
acontecem. Apagar a história de uma cultura, de um povo, ou, no caso de Belo
Monte, de uma etnia, não é tarefa fácil. Mas onde que essa estratégia foi
primeiramente abordada? Punir um povo, como foi o caso de canudos, por meio da
inundação é mesmo uma história inédita? Você não precisa se cristão para ter
ouvido a história da Arca de Noé, não é mesmo? Agora está explicado o porquê de
ser uma estratégia que funciona. Ela foi pensada pelo próprio “Todo Poderoso”.
Mais uma vez: não é preciso ser cristão para conferir o quanto as leituras
bíblicas influenciam o nosso inconsciente coletivo e nos fazem pensar no nosso
MUNDO.
Autoria e formatação: Eurípedes Braga
Revisão e sistematização: Mariana Moura
Contato: professoreuripedes@hotmail.com

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