quinta-feira, 10 de setembro de 2015



CANUDOS  - O PASSADO E O PRESENTE SE CRUZAM FRENTE AOS SEUS OLHOS.

 

            Você, certamente, já ouviu falar sobre a história bíblica do dilúvio, sobre a construção do Lago Paranoá e a questão de Belo Monte. Histórias que, aparentemente, não possuem nenhuma conexão, mas que, aqui no canal Literatura e Mundo, você poderá perceber como elas se conectam e como podem mudar a sua visão de mundo.

Para entrarmos nessa discussão, falaremos, hoje, de uma grande obra da nossa literatura, Os sertões de Euclides da Cunha. Mas não vamos nos deter a descrições de personagens, tempo e espaço. Mais do que elementos da narrativa, hoje vamos analisar como algumas questões dessa obra nos permitem realizar leituras do nosso mundo muito interessantes. Mas deixo como sugestão, para quem se interessar a esses aspectos, a minissérie “Desejo” e, claro, o filme “A guerra de Canudos”.

O que nos interessa sobre essa obra na nossa discussão de hoje são os outros valores que ela carrega. “Os sertões” é considerado o relato mais verossímil sobre o surgimento, desenvolvimento e o massacre de Canudos. Além disso, Euclides da Cunha, impregnou a sua obra de aspectos sociológicos, antropológicos, geográficos e literários, que muito nos interessam aqui. Juntamente a “Vidas secas” e “Grande sertão: veredas”, “Os sertões” formam a tríade representativa de um grande personagem brasileiro: o sertanejo.

            Ainda que algumas linhas teóricas sejam contra a relevância de aspectos biográficos do autor para a análise de uma obra, é interessante enunciar alguns fatos sobre Euclides da Cunha, para entendermos de onde foi que veio “Os sertões”. Euclides gostava de matemática, escrevia para o jornal Democrata, teve uma carreira militar conturbada ao ponto de ser expulso, retornando mais tarde para se especializar em engenharia militar, tinha domínio das ciências naturais e, finalmente, o que mais nos interessa: foi o correspondente do Estado de São Paulo em Canudos, do surgimento à sua destruição.

            Isso já demonstra como Euclides da Cunha não era um escritor empenhado em fazer literatura, mas um jornalista correspondente. E como seus escritos ganharam tanto prestígio literário? Simples. Euclides era o homem certo, no lugar certo e na hora certa. No entanto, é válido lembrar que a visão que Euclides obteve acerca de Canudos ao final de sua jornada lá, não era a mesma do início. É preciso levar em conta o contexto em que se inseria Antônio Conselheiro e seus seguidores: a República era recém proclamada e Canudos era constituída de pessoas que reivindicavam a volta da monarquia. Logo, a imagem que Euclides construíra do povoado, antes mesmo de estar no local, era a de um conglomerado de loucos reacionários. Até porque, ele estava a serviço de uma mídia e manipulação de informações não é uma coisa só dos dias atuais.

            Mas e a obra, professor? Por que devo ler essa obra?

            Para ser sucinto, vamos fazer uma checklist dos motivos para se ler “Os sertões”

ü  Se você gosta de livros extensos: é um livro muito grande.

Se você gosta de livros ricos em expressões: Euclides da cunha tinha um jeito literário para descrever o tipo sertanejo. Expressões como titã acobreado e quasímodo-hércules, transmitem a essência do sertanejo que o autor percebeu.

ü  Se você gosta de livros divididos em volumes: “Os sertões” são divididos em três volumes: “A terra”, “O homem” e” A luta”, cada um com uma temática diferente.

ü  Se você gosta de livros descritivos: leia o volume “A terra”, lá o autor faz uma descrição geográfica minuciosa e riquíssima.

ü  Se você gosta de livros que valorizam a trama, os conflitos, como “O Senhor dos anéis”: leia o volume “O homem”.

ü  Mas se o que você procura é um livro com lutas, sangue e mortes: leia o volume “A luta”, detalhe, aqui, a descrição dos combates e das mortes é feita de uma maneira poética e verdadeira. Bem diferente das descrições artificiais que são feitas apenas para causar impacto no leitor.

Tudo isto e muito mais está contido em “Os sertões”, que é literatura. Mas você está no Literatura e Mundo, então, onde está o mundo nessa nossa reflexão?

            A primeira contextualização da obra com o nosso mundo diz respeito às profecias de Antônio Conselheiro, que muitos acreditam não passar de interpretações bíblicas, ou paráfrases de Nostradamus - médico da Renascença que praticava a alquimia e que ficou famoso por sua suposta capacidade de vidência. Mas o fato é que Conselheiro manifestava certas expressões que se aproximavam de um estilo profético como “em mil chegarás, de dois mil não passarás”, se referindo ao fim do mundo na virada do milênio, ou “cabeças vão rolar”, que inclusive virou uma expressão popular e que podemos considerar como uma profecia cumprida, uma vez que a cabeça de Conselheiro, ao final da história, vai ser motivo de grande confusão. Aproveito o espaço do blog para fazer uma correção: a cabeça do padre foi enviada para que Nina Rodrigues a estudasse, como foi dito no vídeo, mas Nina se trata de um MÉDICO, cujo primeiro nome é Raimundo.

            Mas a profecia mais conhecida do padre Conselheiro, com certeza é que mais nos interessa hoje. “O sertão vai virar mar, o mar vai virar sertão”. Já escutou? Essa já foi reproduzida até em letra de música! E do que ela fala? Sim, de uma suposta inundação. Sabe como Canudos foi destruída? Exatamente. A borracha da história é a água, e não apenas por causa desse caso isolado, mas, atualmente, no Brasil, temos pelo menos três Canudos.

            A primeira, obviamente, corresponde à original, que hoje é o que conhecemos por barragem de Sobradinho. Foi exatamente lá que, há algum tempo atrás, Conselheiro se estabeleceu com seus seguidores reivindicando direitos sobre a terra. Para pensarmos na segunda, basta saber o outro nome que levava o povoado de Canudos: Belo Monte. Autoexplicativo, não é mesmo? Mais uma vez, a água sendo utilizada para apagar a cultura de um povo “em nome do progresso”.

             E você, brasiliense? Nunca se perguntou o porquê de uma das mais antigas regiões administrativas do DF ter o mesmo nome de uma barragem que fica na Bahia? Então vamos lá. Ainda que você não tenha essa resposta, é muito provável que você saiba que o Lago Paranoá é um lago artificial, ou seja foi construído a partir de (mais) uma inundação. Acontece, que o local o qual corresponde ao Lago era onde viviam os trabalhadores responsáveis pela construção de Brasília. A Vila Amaury tem seus resquícios até hoje no fundo do Lago, você pode conferir pesquisando na internet. Mas e Sobradinho? Qual foi o intuito da construção de Sobradinho? Simples: abrigar os trabalhadores imigrantes que vinham do Nordeste, Goiás, BAHIA, obviamente, longe do centro da capital. Coincidência, não é mesmo?
 

            Agora você já pode perceber que a recorrência a alagações não é por acaso que acontecem. Apagar a história de uma cultura, de um povo, ou, no caso de Belo Monte, de uma etnia, não é tarefa fácil. Mas onde que essa estratégia foi primeiramente abordada? Punir um povo, como foi o caso de canudos, por meio da inundação é mesmo uma história inédita? Você não precisa se cristão para ter ouvido a história da Arca de Noé, não é mesmo? Agora está explicado o porquê de ser uma estratégia que funciona. Ela foi pensada pelo próprio “Todo Poderoso”. Mais uma vez: não é preciso ser cristão para conferir o quanto as leituras bíblicas influenciam o nosso inconsciente coletivo e nos fazem pensar no nosso MUNDO.

           

Autoria e formatação: Eurípedes Braga

Revisão e sistematização: Mariana Moura



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