terça-feira, 25 de agosto de 2015

LITERATURA E MUNDO PARA O ENEM
ARCADISMO E ENEM

Aqui estamos com o texto referente ao segundo episódio voltado para o ENEM. É importante ressaltar que as competências a serem desenvolvidas por meio dessas discussões são, sobretudo, as de número 2 e 3. Veja:

2- Compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas do conhecimento para desenvolver o tema dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo.
3- Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações e opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista.

                Mas sobre a competência 2 falaremos mais no próximo episódio.
A proposta de hoje é expor algumas características da escola literária denominada Arcadismo, também chamada de Setecentismo (1700) ou Neoclassicismo. Com esse último nome, fica fácil a compreensão do período. Neo corresponde a novo, logo, o Neoclassicismo seria a retomada do clássico, ou seja, a cultura greco-romana.
                Para iniciarmos nossa compreensão do tema, é interessante que pensemos no contexto histórico do momento em questão. Também intitulado como “era das luzes”, o Iluminismo foi uma corrente filosófica que esteve intrinsecamente ligada ao Arcadismo e que é essencial para a compreensão dos motivos Árcades, que mais tarde desencadearia no Romantismo.
                Pensando nisso, temos o primeiro nome importante do momento em questão: Jean Jaques Rousseau. O que nos interessa sobre ele é, especificamente, o mito do bom selvagem, que depois vai servir de base para o Romantismo brasileiro, mas que nesse primeiro momento árcade, representa a personificação da natureza como algo “puro”.
                Para falar do Arcadismo brasileiro, usaremos como referência o crítico literário Antonio Cândido, que avalia essa estética por dois aspectos: o poético e o ideológico. O que Cândido propõe é que os arcadistas brasileiros transmitem as mesmas ideias que os iluministas europeus de racionalidade e simplicidade – até porque, sendo os esses brasileiros membros da elite da colônia, o contato com a Europa, tanto físico, quanto intelectual, era muito facilitado.
                Mas afinal, o que é marcante da estética árcade? É importante que nos atentemos para características como a busca pela simplicidade, o bucolismo e a poesia pastoril, pois são as que nos ajudam a compreender os famosos clichês árcades. Lembrando que clichês são aquelas expressões que, pelo uso recorrente, acabam ficando “batidas” e acabam se tornando máximas de um determinado contexto.  Os clichês árcades transmitem os princípios clássicos, aquilo que era valorizado na cultura greco-romana. São eles: fugere urbem (fuga da cidade), aurea mediocritras (virtude do equilíbrio), locus amoenus (lugar ameno), inutilia truncat (cortar o inútil) e carpe diem (aproveite o dia). Se, para os neoclássicos, o ideal de arte se encontrava na estética clássica, outro fenômeno bastante comum nesse período será o uso de pseudônimo, ou seja, para me libertar do meu contexto, eu uso um “nome falso” com referências pastoris, bucólicas.
                Mas como essas informações poderiam ser inseridas na minha redação do ENEM?
                O ENEM de 1998 apresentou como texto motivador um trecho de uma música do Gonzaguinha (“O que é o que é”), com o tema     “viver e aprender”. Se observamos a letra dessa música, vamos perceber a referência do autor à pureza da criança, que dá uma resposta SIMPLES à vida, que é bonita. É interessante que você ouça ou leia a letra inteira da música para melhor compreensão dessa associação.
                Lembra dos clichês árcades? Lembra que o carpe diem é o valorizar, o sugar da essência da vida aproveitando o dia? Agora associe isso ao modo de viver da criança, que, mesmo em meio a problemas e turbulência, consegue fugir (fugere urbem) desse contexto para ver a vida como algo bonito e simples. Exatamente a mesma visão que Tomás Antônio Gonzaga apresenta em “Marília de Dirceu”, ao incentivá-la a aprender com a simplicidade dos animais a amar e a cuidar do seu filho, ou ainda, ao dizer que não deseja grandes riquezas (inutilia truncat), mas o suficiente para viver e fazê-la feliz.
                Perceba que a citação do autor e da obra, apesar de deixarem a sua redação mais rica, não seria necessária, pois o simples conhecimento dos clichês já seria suficiente para dar embasamento teórico ao seu texto e, consequentemente, garantir uma boa pontuação nas competências 2 e 3.

                 Se você gostou e quer assistir aos próximos episódios.. CLIQUE AQUI.
          

               
Autoria e formatação: Eurípedes Braga
Revisão e sistematização: Mariana Moura


quarta-feira, 19 de agosto de 2015

SÉRIE: THE FOLLOWING... TUDO QUE VOCÊ QUERIA SABER E NUNCA PERCEBEU.. EM UM SÓ LUGAR. FOLLOWING ME.


                        Quando falamos que algo ou alguém é romântico, logo vem à nossa mente ideias relacionadas ao amor. O homem que dá flores, a mulher que sonha em se casar, corações, emoções e a lista não acaba. O que você talvez não espere do romântico seja o macabro, a morte ou mesmo um seriado que trate de um serial killer. Sim, estamos falando de Romantismo.
            Mas antes de irmos ao assunto diretamente, é interessante que passemos por algumas noções históricas e simbólicas que perpassam o inconsciente coletivo relacionado ao medo e ao terror e que nos ajudarão a empreender melhor o objetivo final dessa análise.
           Dessa forma, a primeira noção histórica cronológica que precisamos ter em mente é: o que veio antes do romantismo? No Brasil, sabemos que foi o arcadismo, mas na Europa, esse movimento não se manifestou com tanta força, tendo sido apenas uma filosofia de vida. Logo, o movimento literário anterior ao Romantismo na Europa foi o Barroco. Mas o que o Barroco, tão marcado pelos conflitos existenciais do homem hiperbólico dos seiscentos, teria de ligação com o Romantismo? Nada mais nada menos que a sua própria gênese: o Barroco surge como uma iniciativa da Igreja, a Contrarreforma, certo? Pronto. A religiosidade cristã é a marca da escola seguinte, o Romantismo, que, além de cristão, é um movimento essencialmente burguês e que foi feito para “aparecer”.
            Logo, percebemos que uma das heranças adquiridas do Barroco pelo Romantismo é a religiosidade adaptada ao gosto burguês. Outra característica que se nota nessa transição é o aperfeiçoamento do “feísmo” barroco, marcado pelo exagero, que no romântico vai ser chamado de “gosto pelo mórbido”, que, em última instância, desenvolve o “culto à morte” (morrer de amor). Perceber isso é muito simples quando pensamos nas obras “Frankenstein” de Mary Shelley ou no “Corcunda de Notre Dame” de Victor Hugo. Pense nesses dois personagens e agora os associe ao feísmo do barroco. Fica claro, não é mesmo?
            Apesar de essas obras nos ajudarem na compreensão estética das influências barrocas no Romantismo, não há obra que ilustre essa escola literária de forma mais perfeita do que “Os sofrimentos do jovem Werther” de Goethe. Poderíamos trazer à tona muitas (senão todas) características românticas presentes nessa obra para a nossa discussão, mas o que nos importa no momento é a oposição entre o locus horrendus e o locus amoenus. Nessa obra, inaugura-se o recurso de exploração do ambiente como reflexo do estado interior da personagem. Ou seja, o lugar ameno representa a paz de espírito da personagem, ao passo que o lugar horrendo representaria uma perturbação interior. A partir dessa concepção, você consegue associar uma porção de símbolos e compreender a construção do inconsciente coletivo relacionado ao terror.
            Esses símbolos são diversos. Pensemos no gato preto, por exemplo. É da cultura popular associar a imagem do gato preto à ideia de azar. No entanto, nem sempre e nem em todo lugar as pessoas pensam no bichinho como algo pejorativo. Exatamente a cultura egípcia manifestava apreço e adoração pelo felino, porque perceberam que os gatos eram ótimos aliados no combate a ratos, que prejudicavam as plantações. A partir daí, o animal passou a corresponder a divindades entre os egípcios, que sempre os representava na cor preta. Mas o que isso tem a ver com o romantismo  cristão? Simples, mais uma jogada da Igreja que, ao combater o paganismo, associa as suas imagens a conceitos negativos. Inteligente e eficaz.
            Da mesma forma que extraímos uma explicação do gato, podemos fazer com o vinho, com a lareira, o corvo, a pomba, com o abutre e o deserto. Se quiser saber mais sobre esses, assista ao vídeo.


                                                              ASSISTA AO EPISÓDIO

            Finalmente, chegamos ao nosso objetivo final: falar sobre o seriado “The Following”. A crítica, de forma geral, tem comentado sobre essa série deixando sempre uma sensação de não compreender o porquê de ela ser tão envolvente. Se você já a acompanha, conseguiu perceber o quanto o inconsciente coletivo é explorado por meio desses símbolos mencionados. Se não a acompanha, assista a alguns capítulos já observando essa tática. Tudo fará sentido!
            Antes de continuar, um aviso importante: NÃO CONTÉM SPOILLERS
            Resumidamente, a série trata de um serial killer que é um professor de literatura. Mas não qualquer professor de literatura e sim um estudioso especialista em Edgar Allan Poe, autor americano gótico considerado o “pai do terror”. Dessa forma, o autor da série estudou minunciosamente alguns dos principais contos de Poe (A queda da casa de Usher, A carta roubada, O coração delator, William Wilson, O gato preto) e os transpôs para o plano da história que envolve Joe Carrol (o professor psicopata) e toda a sua legião de “fãs”, que é o alvo de combate de todo o FBI, especialmente do consultor e ex-agente, Ryan Hardy.

            Tendo assistido ao vídeo, percebido as associações e compreendido (ou não) as análises, faço o convite a você que não conhece a série para que a assista disposto a notar esses símbolos e referências. Tudo isso para que, mais uma vez, você possa perceber como a literatura dá mais sentido ao seu mundo.

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sexta-feira, 7 de agosto de 2015

          Faltam menos de três meses para o ENEM e a busca por meios alternativos para se estudar de forma mais eficaz fica a cada dia mais recorrente. Tendo o “Literatura e Mundo” nascido nesse contexto, não é nenhuma surpresa que tenham “chovido” e-mails na minha caixa de entrada (22 pra mim já foram muitos para uma canal com 2 semanas rs) pedindo por episódios que abordassem temas de literatura voltados para o ENEM. Como coloquei no vídeo de apresentação, esse canal foi feito para vocês. E se são dicas para o ENEM que vocês querem, são dicas para o ENEM que vocês terão. 

          Mas não vamos falar de literatura de forma desconexa como se ela fosse só mais uma das matérias cobradas no exame, afinal a proposta do canal é, justamente, mostrar como essa disciplina está presente no nosso mundo. Sendo assim, vamos perceber, nesses episódios especiais, como o estudo das escolas literárias pode ser aplicado na sua argumentação na redação. Veja do que tratam as competências 3 e 4 avaliadas no ENEM:

 3 – Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações e opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista. 
4 – Demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação. 

          Para que vocês entendam a proposta desses episódios especiais (que serão 12, porque prefiro evitar o 13 em tempos de crise) vamos à prática, começando com a primeira escola literária brasileira, o Quinhentismo. 
          Primeiramente, a polêmica: o Quinhentismo nem sempre é considerado uma escola literária, até porque os únicos “escritores” desse momento foram os portugueses e os textos se tratavam de cartas e relatos de navegantes que só apresentavam a visão do colonizador. Nesse contexto, chamado por Antônio Candido de Período de Colonização ou Literatura de Colonização (existem várias nomenclaturas), observamos duas correntes de manifestações literárias: a literatura informativa e a literatura formativa. A primeira, tinha o objetivo de informar à metrópole sobre o processo de colonização e Carta de Pero Vaz de Caminha (Carta de Achamento do Brasil) é a grande representante da corrente. A segunda tinha como finalidade a formação de novos cidadãos na fé, afinal, estamos falando de um período turbulento para a Igreja na Europa por causa da Reforma Protestante. (Lutero, Calvino, Savonarola, Henrique VIII). 

          Mas como isso poderia ser trabalhado na redação do ENEM? 

          É simples! Em 2010, o tema da redação do ENEM foi “O trabalho na construção da dignidade humana”, sendo que os textos motivadores apontavam para a possibilidade de uma abordagem sobre exploração do trabalho. Se você se lembrar, na literatura de informação do Quinhentismo, mais especificamente, na Carta de Achamento do Brasil de Pero Vaz de Caminha, a ótica do colonizador já apontava para uma mentalidade de interesse em exploração de riquezas brasileiras e mão de obra barata. A partir desse referente histórico/literário, você já poderia correlacionar o artigo 1º - IV da Constituição Federativa do Brasil de 1988 (Inciso que formaliza os Direitos Humanos como fundamentos da República Brasileira), demonstrando embasamento diacrônico e domínio de seleção, organização e seleção de ideias. 

          Na sequência das escolas literárias, temos o Barroco. Essa estética é comumente caracterizada das seguintes formas: “arte do exagero”, “pérola de formato irregular” e “arte do conflito”. Resumidamente, o Barroco pode ser sintetizado em uma figura de linguagem, já que se trata do conflito entre o BEM vs MAL, ou seja, uma antítese. Nesse período, duas concepções filosóficas se destacaram na Europa e no Brasil. A primeira foi o conceptismo ou quevedismo (Francisco de Quevedo), que consiste em um jogo de ideias e que foi representada no Brasil pelo Pe. Antônio Vieira. A segunda, o cultismo ou gongorismo (Luís de Gôngora), que consiste em um jogo de palavras e tem como grande representante o baiano Gregório de Matos e Guerra. 

Mas como é que Gregório de Matos pode parar na minha redação, professor? 

Mais uma vez, a associação é simples! No ano de 2001, o tema da redação do ENEM discutia, (entre os vários textos motivadores), a possibilidade da construção da usina de Belo Monte, sendo que o tema era “Desenvolvimento e preservação ambiental: como conciliar os interesses em conflito”. A própria palavra “conflito” já nos reporta para a estética barroca, afinal, na luta entre índios e “brancos” há também uma associação entre o BEM vs MAL. Outros pontos em comum: o caráter religioso que ambos os contextos apresentam, o barroco com a reforma e contrarreforma e a luta indígena contra o processo de aculturação. Na atualidade a luta dos indígenas pela reivindicação de territórios para eles considerados sagrados. Com isso, você expõe no seu texto que o conflito entre o religioso e o “profano” (desenvolvimento moderno, intelectual, existencial e tecnológico) é encontrado tanto no contexto do sec. XVII, como no nosso contexto. 

          Outra possibilidade é a utilização da obra de Gregório de Matos e Guerra. Como bem diz seu apelido, o Boca do inferno não poupou palavras para denunciar certos problemas sociais e abusos de autoridades governamentais (na verdade ninguém escapava). Com isso, você já sabe que a moda de se criticar o governo foi, na verdade, inaugurada há muito mais tempo que imaginamos. Mas o fato é que Gregório, na sua poesia satírica, já apontava a tendência dos que estão no poder a se aproveitar da situação menos favorável da população. Mas lembre-se: a crítica ao governo em uma redação do ENEM reside em uma zona bastante delicada e precisa ser bem pensada. 

LEMBRETE 

Ao construir um argumento com o foco na crítica governamental, é necessário uma organização, fundamentação e levantamento de dados, de preferência oficiais, para que o examinador entenda que você não está trabalhando com conjecturas ou especulações. Não que você não possa fazer críticas, me entenda bem, mas em se tratando de uma avaliação institucional governamental, há alguns princípios muito valiosos, EXTRA-TEXTUAIS que devem ser considerados para tal produção: 

- Informações de fontes não confiáveis, ou processos “jurídicos” não transitados em julgado. Ou seja, apenas citar, condenar alguém/instituição sem o devido processo legal, transforma seu texto em SUPOSIÇÕES. 

- Colocações de fontes da “mídia”, ou notícias sensacionalistas sem apontar seus autores e/ou referências plausíveis e respeitadas em ralação ao tema, desestrutura sua argumentação e transforma seu texto em SUPOSIÇÕES. 

RESUMINDO: A capacidade de construir um argumento “desfavorável” sobre um determinado assunto governamental pode, mesmo que indiretamente, desviar o foco da sua produção. 

PORTANTO: USE A LITERATURA E CONSTRUA SUA ARGUMENTAÇÃO DIACRONICAMENTE. EVITE STRESS!! Esse foi o primeiro texto da série de episódios voltados para o ENEM..... 

“Sozinhos vamos mais rápidos Juntos vamos mais longe” 
 Pirola 

Autoria, produção e formatação: Eurípedes Braga 
Revisão e sistematização: Mariana Moura 

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quarta-feira, 5 de agosto de 2015

BATE PAPO SOBRE O CANAL

QUE LOMBRA ÉPICA






Pensar em uma grande referência literária da humanidade não é, nem de longe, uma tarefa muito complicada. Os grandes nomes dignos de entrarem para o cânone mundial, de fato, são muitos, mas, diante de uma escolha, fico com os gregos, afinal, não estamos nos referindo ao que é só “bom” ou “muito bom”. Estamos falando do que é ÉPICO.
Você consegue imaginar como a Ilíada e a Odisseia, obras que representam o gosto popular do contexto da Grécia de VIII a.C, podem influenciar as preferências dos nossos dias? Se não, você irá se surpreender, pois o fato é que entre gregos e troianos, encontramos produções da Marvel e desenhos animados que acompanharam nossa infância.
Quem nunca ouviu alguém falar, ou mesmo disse algo como “Foi épico o que ele fez! ”? Ou então “Viu o novo épico que está em cartaz? ”. A recorrência dessa palavra no vocabulário contemporâneo manifesta-se de tal forma que não pode ser simplesmente ignorada. E o mais interessante é que, mesmo sem saber a definição teórica do que é uma epopeia, as pessoas naturalmente a ligam a algo positivo. Mas já que falei em definição, pensemos em epopeia a partir do seguinte conceito:

Narrativa de feitos heroicos e bravos de um povo centrada em um herói.
           
     Mas o que essa definição nos diz, afinal, é que pode ser considerado épico aquilo que conte a história de uma nação, com foco em um herói que a representa de forma digna e brava. Ora, a representação de uma grande nação não pode ser feita por qualquer um, certo?  Logo nos vem a imagem do Brad Pitt como Aquiles em “Tróia”: um homem bonito, forte e loiro representando bravamente seu povo com sua índole impecável, padrões estéticos e morais idealizados na Grécia e que perpetuam até hoje.
Apesar desses padrões serem exaustivamente repetidos, eles também são questionados em propostas subversivas (e muito inteligentes) como o filme “Eu sou a lenda”, em que o herói solitário, Robert Neville (Will Smith), é um médico negro que tenta salvar sua nação de um vírus causador de mutações na ilha de Manhattan – representação hipônima dos Estados Unidos. 
Um herói nessas condições, em um contexto de ascensão do primeiro presidente negro do país, não pode ser mera coincidência. Aliás, não foram só os norte-americanos que herdaram a mania grega de representar a nação na pele de um personagem. Representações hipônimas são recorrentes na construção de personagens, como o Carlitos de Charles Chaplin e a conhecida luso-brasileira Carmem Miranda. O primeiro, numa versão mais satírica do homem que sente a constante sensação de estranhamento em relação à sociedade moderna inglesa. A segunda, funcionando como uma “propaganda” do Brasil tropical, com suas roupas coloridas, músicas e danças alegres, Hollywood afora.
Mas vamos pensar novamente naqueles padrões mencionados anteriormente: o homem forte, loiro e de índole impecável que representa sua nação. Se já não tivesse mencionado de quem estamos falando, bem que poderíamos associar a descrição ao nosso querido Steve Rogers. Isso mesmo, o Capitão América.
                Isso mostra como a LITERATURA se relaciona com nosso MUNDO, influenciando a sociedade em diversos aspectos. Você certamente já ouviu falar da Torre Eiffel, sim, o monumento localizado na cidade de Paris. Acontece que, em uma das várias mortes de Aquiles, quem dispara a flecha do assassinato é Páris. Essa flecha, muito certeiramente, acerta em cheio o calcanhar do herói, não por sorte, mas porque fora conduzida pelo deus Apolo. Pesquisando na internet ou em qualquer outra fonte qual a altura da Torre Eiffel, você encontrará duas medidas mais populares: 324m ou 333m. Em ambos os casos, a soma dos algarismos resultará em nove. Nove é exatamente o número de musas que vivem no Monte Parnaso, o mesmo onde vive o deus Apolo.
                Outro aspecto de grande relevância para essa análise é o local onde está localizada a Torre, o Campo de Marte. Marte é mais conhecido por ser o deus da guerra, mas poucos se lembram de que ele é também o pai do Cupido, personagem famoso por também lançar FLECHAS. Mais uma vez, a referência ao objeto causador da morte de Aquiles.
Por último, especialmente para você que ainda acredita que tudo isso é coincidência, existe uma réplica da Torre Eiffel na cidade grega de Filiatra, ao sul de Atenas, que também fica muito próxima da cidade de Tróia. Coincidência, não? Aliás, já que estamos engradecendo os legados gregos e mencionei a cidade de Filiatra, note a semelhança: Filiatra – Filiantra – Filantropia. Qual a necessidade dessa menção? Acontece que o surgimento termo “filantropia” é creditado ao imperador romano Juliano que, querendo restituir o paganismo como religião de Roma, inventou um termo equivalente à caridade cristã que transmitisse a mesma ideia de serviço ao próximo. A etimologia da palavra, no entanto, é de origem grega. Mas esse reaproveitamento da cultura grega por parte dos romanos não é mais nenhuma novidade para nós.
E não foram só os romanos que aderiram à essa ideia de assimilação da cultura grega. Já vimos algumas referências modernas a Aquiles, e às epopeias homéricas de forma geral, anteriormente. Outra personagem da Odisseia que é digna de nossa atenção é a formosa Penélope. Penélope era a esposa de Odisseu, que era rei de Ítaca. Tendo Odisseu partido para Tróia, ela ficou em Ítaca com seu filho, ainda bebê, esperando o retorno de seu amado esposo. Mas a demora do retorno de Odisseu começou a encorajar os homens de Ítaca a pressionarem Penélope para que se casasse outra vez, isso porque ela era a dona de toda a riqueza do reino, além de ser uma mulher muito bonita. Mas acontece que, além de muito bonita, ela era muito inteligente e conseguiu pensar em uma estratégia para enganar seus ansiosos pretendentes e poder aguardar o retorno de Odisseu. Ela anunciou que iria se casar novamente, mas somente depois que tecesse uma mortalha para o pai de Odisseu, também conhecida por “tapete de Penélope”. O segredo era que ela tecia o tapete de dia e à noite desfazia todo o seu trabalho, atrasando, dessa forma, o cumprimento de sua promessa. Esse trabalho de tecer e desfazer o tapete à espera do marido transformou Penélope não só em um símbolo de fidelidade, mas também de paciência. Mas se você desconsidera o paganismo da mitologia grega, pode conferir outro símbolo de paciência em Jó 6:11.
Mas isso é a literatura. E no nosso mundo?
No nosso mundo, ou no mundo de nossas infâncias, temos a Penélope Charmosa, originalmente personagem da Corrida Maluca, mas que, com seu sucesso, acabou ganhando seu próprio desenho. Penélope charmosa é uma mulher loira, bonita, rica, sozinha e é muito disputada pelos homens. Interessante... essa história parece já ter sido contada antes. Só há VIII a.C.
Finalmente, depois de toda essa viagem pela cultura grega, aterrissamos em solo Luso para falar sobre outra grande epopeia da humanidade: Os Lusíadas. Ter a qualidade de uma epopeia reconhecida mundial e atemporariamente não é tarefa fácil para um escritor, mas Luís Vaz de Camões, com a nossa humilde Língua Portuguesa conseguiu empreender essa façanha, mais de 1500 anos depois de Homero, com muito engenho e arte. Afinal, estamos falando de uma obra composta por 10 cantos, toda em versos (8816), decassílabos e rimados em esquema de oitava real (ABABABCC). O tema central da obra são as grandes navegações do século XVI, lideradas por Vasco da Gama. Lembrando que o herói épico é sempre uma representação hipônima da sua nação, portanto, apesar de a obra, em alguns momentos, parecer dar destaque a Vasco da Gama, o herói de Os Lusíadas é o povo lusitano. Afinal, a grande empresa da expansão marítima foi resultado do esforço de todo Portugal. Mas falar dessa obra dá muito “pano pra manga”, por isso, vou deixar para um SEGUNDO momento a história que tem como personagem VASCO da Gama. 

Essas são algumas das evidências que nos fazem perceber como as referências literárias adentram em aspectos do nosso mundo e, facilmente, passam despercebidas aos olhos e mentes descuidadas. É possível que essas percepções sejam só mais algumas informações que adquirimos e ficarão inutilizadas em algum canto do nosso cérebro. No entanto, a sensação de encontrar significados em algo antes considerado “vazio”, e mais, por meio da literatura, é uma forma única de dar sentido ao mundo. Ao SEU mundo.


" Sozinhos vamos mais rápido, mas juntos vamos mais longe" Pirola.

Autoria, produção e formatação: Eurípedes Braga

Revisão e sistematização: Mariana Moura

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