Quando
falamos que algo ou alguém é romântico, logo vem à nossa mente ideias
relacionadas ao amor. O homem que dá flores, a mulher que sonha em se casar,
corações, emoções e a lista não acaba. O que você talvez não espere do
romântico seja o macabro, a morte ou mesmo um seriado que trate de um serial killer. Sim, estamos falando de
Romantismo.
Mas antes
de irmos ao assunto diretamente, é interessante que passemos por algumas noções
históricas e simbólicas que perpassam o inconsciente coletivo relacionado ao
medo e ao terror e que nos ajudarão a empreender melhor o objetivo final dessa
análise.
Dessa forma, a primeira noção histórica cronológica que
precisamos ter em mente é: o que veio antes do romantismo? No Brasil, sabemos
que foi o arcadismo, mas na Europa, esse movimento não se manifestou com tanta
força, tendo sido apenas uma filosofia de vida. Logo, o movimento literário
anterior ao Romantismo na Europa foi o Barroco. Mas o que o Barroco, tão
marcado pelos conflitos existenciais do homem hiperbólico dos seiscentos, teria
de ligação com o Romantismo? Nada mais nada menos que a sua própria gênese: o
Barroco surge como uma iniciativa da Igreja, a Contrarreforma, certo? Pronto. A
religiosidade cristã é a marca da escola seguinte, o Romantismo, que, além de cristão,
é um movimento essencialmente burguês e que foi feito para “aparecer”.
Logo,
percebemos que uma das heranças adquiridas do Barroco pelo Romantismo é a
religiosidade adaptada ao gosto burguês. Outra característica que se nota nessa
transição é o aperfeiçoamento do “feísmo” barroco, marcado pelo exagero, que no
romântico vai ser chamado de “gosto pelo mórbido”, que, em última instância,
desenvolve o “culto à morte” (morrer de amor). Perceber isso é muito simples quando pensamos nas obras
“Frankenstein” de Mary Shelley ou no “Corcunda de Notre Dame” de Victor Hugo.
Pense nesses dois personagens e agora os associe ao feísmo do barroco. Fica
claro, não é mesmo?
Apesar de
essas obras nos ajudarem na compreensão estética das influências barrocas no
Romantismo, não há obra que ilustre essa escola literária de forma mais
perfeita do que “Os sofrimentos do jovem Werther” de Goethe. Poderíamos trazer
à tona muitas (senão todas) características românticas presentes nessa obra
para a nossa discussão, mas o que nos importa no momento é a oposição entre o locus horrendus e o locus amoenus. Nessa obra, inaugura-se o recurso de exploração do
ambiente como reflexo do estado interior da personagem. Ou seja, o lugar ameno
representa a paz de espírito da personagem, ao passo que o lugar horrendo
representaria uma perturbação interior. A partir dessa concepção, você consegue
associar uma porção de símbolos e compreender a construção do inconsciente
coletivo relacionado ao terror.
Esses
símbolos são diversos. Pensemos no gato preto, por exemplo. É da cultura
popular associar a imagem do gato preto à ideia de azar. No entanto, nem sempre
e nem em todo lugar as pessoas pensam no bichinho como algo pejorativo.
Exatamente a cultura egípcia manifestava apreço e adoração pelo felino, porque
perceberam que os gatos eram ótimos aliados no combate a ratos, que
prejudicavam as plantações. A partir daí, o animal passou a corresponder a
divindades entre os egípcios, que sempre os representava na cor preta. Mas o
que isso tem a ver com o romantismo cristão? Simples, mais uma jogada da
Igreja que, ao combater o paganismo, associa as suas imagens a conceitos
negativos. Inteligente e eficaz.
Da mesma
forma que extraímos uma explicação do gato, podemos fazer com o vinho, com a
lareira, o corvo, a pomba, com o abutre e o deserto. Se quiser saber mais sobre
esses, assista ao vídeo.
Finalmente,
chegamos ao nosso objetivo final: falar sobre o seriado “The Following”. A
crítica, de forma geral, tem comentado sobre essa série deixando sempre uma
sensação de não compreender o porquê de ela ser tão envolvente. Se você já a
acompanha, conseguiu perceber o quanto o inconsciente coletivo é explorado por
meio desses símbolos mencionados. Se não a acompanha, assista a alguns
capítulos já observando essa tática. Tudo fará sentido!
Antes de
continuar, um aviso importante: NÃO CONTÉM SPOILLERS
Resumidamente,
a série trata de um serial killer que
é um professor de literatura. Mas não qualquer professor de literatura e sim um
estudioso especialista em Edgar Allan Poe, autor americano gótico considerado o
“pai do terror”. Dessa forma, o autor da série estudou minunciosamente alguns
dos principais contos de Poe (A queda da casa de Usher, A carta roubada, O
coração delator, William Wilson, O gato preto) e os transpôs para o plano da
história que envolve Joe Carrol (o professor psicopata) e toda a sua legião de
“fãs”, que é o alvo de combate de todo o FBI, especialmente do consultor e
ex-agente, Ryan Hardy.
Tendo
assistido ao vídeo, percebido as associações e compreendido (ou não) as
análises, faço o convite a você que não conhece a série para que a assista
disposto a notar esses símbolos e referências. Tudo isso para que, mais uma
vez, você possa perceber como a literatura dá mais sentido ao seu mundo.
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