Pensar em uma
grande referência literária da humanidade não é, nem de longe, uma tarefa muito
complicada. Os grandes nomes dignos de entrarem para o cânone mundial, de fato,
são muitos, mas, diante de uma escolha, fico com os gregos, afinal, não estamos
nos referindo ao que é só “bom” ou “muito bom”. Estamos falando do que é ÉPICO.
Você consegue imaginar
como a Ilíada e a Odisseia, obras que representam o gosto popular do contexto
da Grécia de VIII a.C, podem influenciar as preferências dos nossos dias? Se
não, você irá se surpreender, pois o fato é que entre gregos e troianos,
encontramos produções da Marvel e desenhos animados que acompanharam nossa
infância.
Quem nunca
ouviu alguém falar, ou mesmo disse algo como “Foi épico o que ele fez! ”? Ou
então “Viu o novo épico que está em cartaz? ”. A recorrência dessa palavra no vocabulário
contemporâneo manifesta-se de tal forma que não pode ser simplesmente ignorada.
E o mais interessante é que, mesmo sem saber a definição teórica do que é uma
epopeia, as pessoas naturalmente a ligam a algo positivo. Mas já que falei em
definição, pensemos em epopeia a partir do seguinte conceito:
Narrativa
de feitos heroicos e bravos de um povo centrada em um herói.
Mas
o que essa definição nos diz, afinal, é que pode ser considerado épico aquilo
que conte a história de uma nação, com foco em um herói que a representa de
forma digna e brava. Ora, a representação de uma grande nação não pode ser
feita por qualquer um, certo? Logo nos vem
a imagem do Brad Pitt como Aquiles em “Tróia”: um homem bonito, forte e loiro
representando bravamente seu povo com sua índole impecável, padrões estéticos e
morais idealizados na Grécia e que perpetuam até hoje.
Apesar desses
padrões serem exaustivamente repetidos, eles também são questionados em
propostas subversivas (e muito inteligentes) como o filme “Eu sou a lenda”, em
que o herói solitário, Robert Neville (Will Smith), é um médico negro que tenta
salvar sua nação de um vírus causador de mutações na ilha de Manhattan –
representação hipônima dos Estados Unidos.
Um herói nessas condições, em um
contexto de ascensão do primeiro presidente negro do país, não pode ser mera
coincidência. Aliás, não foram só os norte-americanos que herdaram a mania
grega de representar a nação na pele de um personagem. Representações hipônimas
são recorrentes na construção de personagens, como o Carlitos de Charles
Chaplin e a conhecida luso-brasileira Carmem Miranda. O primeiro, numa versão
mais satírica do homem que sente a constante sensação de estranhamento em
relação à sociedade moderna inglesa. A segunda, funcionando como uma
“propaganda” do Brasil tropical, com suas roupas coloridas, músicas e danças
alegres, Hollywood afora.
Mas vamos
pensar novamente naqueles padrões mencionados anteriormente: o homem forte,
loiro e de índole impecável que representa sua nação. Se já não tivesse mencionado
de quem estamos falando, bem que poderíamos associar a descrição ao nosso
querido Steve Rogers. Isso mesmo, o Capitão América.
Isso
mostra como a LITERATURA se relaciona com nosso MUNDO, influenciando a sociedade
em diversos aspectos. Você certamente já ouviu falar da Torre Eiffel, sim, o
monumento localizado na cidade de Paris. Acontece que, em uma das várias mortes
de Aquiles, quem dispara a flecha do assassinato é Páris. Essa flecha, muito
certeiramente, acerta em cheio o calcanhar do herói, não por sorte, mas porque
fora conduzida pelo deus Apolo. Pesquisando na internet ou em qualquer outra
fonte qual a altura da Torre Eiffel, você encontrará duas medidas mais
populares: 324m ou 333m. Em ambos os casos, a soma dos algarismos resultará em
nove. Nove é exatamente o número de musas que vivem no Monte Parnaso, o mesmo
onde vive o deus Apolo.
Outro
aspecto de grande relevância para essa análise é o local onde está localizada a
Torre, o Campo de Marte. Marte é mais conhecido por ser o deus da guerra, mas
poucos se lembram de que ele é também o pai do Cupido, personagem famoso por
também lançar FLECHAS. Mais uma vez, a referência ao objeto causador da morte
de Aquiles.
Por último,
especialmente para você que ainda acredita que tudo isso é coincidência, existe
uma réplica da Torre Eiffel na cidade grega de Filiatra, ao sul de Atenas, que
também fica muito próxima da cidade de Tróia. Coincidência, não? Aliás, já que
estamos engradecendo os legados gregos e mencionei a cidade de Filiatra, note a
semelhança: Filiatra – Filiantra – Filantropia. Qual a necessidade dessa
menção? Acontece que o surgimento termo “filantropia” é creditado ao imperador
romano Juliano que, querendo restituir o paganismo como religião de Roma, inventou
um termo equivalente à caridade cristã que transmitisse a mesma ideia de
serviço ao próximo. A etimologia da palavra, no entanto, é de origem grega. Mas
esse reaproveitamento da cultura grega por parte dos romanos não é mais nenhuma
novidade para nós.
E não foram só
os romanos que aderiram à essa ideia de assimilação da cultura grega. Já vimos
algumas referências modernas a Aquiles, e às epopeias homéricas de forma geral,
anteriormente. Outra personagem da Odisseia que é digna de nossa atenção é a
formosa Penélope. Penélope era a esposa de Odisseu, que era rei de Ítaca. Tendo
Odisseu partido para Tróia, ela ficou em Ítaca com seu filho, ainda bebê,
esperando o retorno de seu amado esposo. Mas a demora do retorno de Odisseu
começou a encorajar os homens de Ítaca a pressionarem Penélope para que se
casasse outra vez, isso porque ela era a dona de toda a riqueza do reino, além
de ser uma mulher muito bonita. Mas acontece que, além de muito bonita, ela era
muito inteligente e conseguiu pensar em uma estratégia para enganar seus
ansiosos pretendentes e poder aguardar o retorno de Odisseu. Ela anunciou que
iria se casar novamente, mas somente depois que tecesse uma mortalha para o pai
de Odisseu, também conhecida por “tapete de Penélope”. O segredo era que ela
tecia o tapete de dia e à noite desfazia todo o seu trabalho, atrasando, dessa
forma, o cumprimento de sua promessa. Esse trabalho de tecer e desfazer o
tapete à espera do marido transformou Penélope não só em um símbolo de
fidelidade, mas também de paciência. Mas se você desconsidera o paganismo da
mitologia grega, pode conferir outro símbolo de paciência em Jó 6:11.
Mas isso é a
literatura. E no nosso mundo?
No nosso
mundo, ou no mundo de nossas infâncias, temos a Penélope Charmosa,
originalmente personagem da Corrida Maluca, mas que, com seu sucesso, acabou
ganhando seu próprio desenho. Penélope charmosa é uma mulher loira, bonita,
rica, sozinha e é muito disputada pelos homens. Interessante... essa história
parece já ter sido contada antes. Só há VIII a.C.
Finalmente,
depois de toda essa viagem pela cultura grega, aterrissamos em solo Luso para
falar sobre outra grande epopeia da humanidade: Os Lusíadas. Ter a qualidade de
uma epopeia reconhecida mundial e atemporariamente não é tarefa fácil para um
escritor, mas Luís Vaz de Camões, com a nossa humilde Língua Portuguesa
conseguiu empreender essa façanha, mais de 1500 anos depois de Homero, com
muito engenho e arte. Afinal, estamos
falando de uma obra composta por 10 cantos, toda em versos (8816), decassílabos
e rimados em esquema de oitava real (ABABABCC). O tema central da obra são as
grandes navegações do século XVI, lideradas por Vasco da Gama. Lembrando que o
herói épico é sempre uma representação hipônima da sua nação, portanto, apesar
de a obra, em alguns momentos, parecer dar destaque a Vasco da Gama, o herói de
Os Lusíadas é o povo lusitano. Afinal, a grande empresa da expansão marítima
foi resultado do esforço de todo Portugal. Mas falar dessa obra dá muito “pano
pra manga”, por isso, vou deixar para um SEGUNDO momento a história que tem
como personagem VASCO da Gama.
Essas são
algumas das evidências que nos fazem perceber como as referências literárias
adentram em aspectos do nosso mundo e, facilmente, passam despercebidas aos
olhos e mentes descuidadas. É possível que essas percepções sejam só mais
algumas informações que adquirimos e ficarão inutilizadas em algum canto do
nosso cérebro. No entanto, a sensação de encontrar significados em algo antes
considerado “vazio”, e mais, por meio da literatura, é uma forma única de dar
sentido ao mundo. Ao SEU mundo.
" Sozinhos vamos mais rápido, mas juntos vamos mais longe" Pirola.
Autoria, produção e formatação: Eurípedes Braga
Revisão e sistematização: Mariana Moura
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