quarta-feira, 5 de agosto de 2015

QUE LOMBRA ÉPICA






Pensar em uma grande referência literária da humanidade não é, nem de longe, uma tarefa muito complicada. Os grandes nomes dignos de entrarem para o cânone mundial, de fato, são muitos, mas, diante de uma escolha, fico com os gregos, afinal, não estamos nos referindo ao que é só “bom” ou “muito bom”. Estamos falando do que é ÉPICO.
Você consegue imaginar como a Ilíada e a Odisseia, obras que representam o gosto popular do contexto da Grécia de VIII a.C, podem influenciar as preferências dos nossos dias? Se não, você irá se surpreender, pois o fato é que entre gregos e troianos, encontramos produções da Marvel e desenhos animados que acompanharam nossa infância.
Quem nunca ouviu alguém falar, ou mesmo disse algo como “Foi épico o que ele fez! ”? Ou então “Viu o novo épico que está em cartaz? ”. A recorrência dessa palavra no vocabulário contemporâneo manifesta-se de tal forma que não pode ser simplesmente ignorada. E o mais interessante é que, mesmo sem saber a definição teórica do que é uma epopeia, as pessoas naturalmente a ligam a algo positivo. Mas já que falei em definição, pensemos em epopeia a partir do seguinte conceito:

Narrativa de feitos heroicos e bravos de um povo centrada em um herói.
           
     Mas o que essa definição nos diz, afinal, é que pode ser considerado épico aquilo que conte a história de uma nação, com foco em um herói que a representa de forma digna e brava. Ora, a representação de uma grande nação não pode ser feita por qualquer um, certo?  Logo nos vem a imagem do Brad Pitt como Aquiles em “Tróia”: um homem bonito, forte e loiro representando bravamente seu povo com sua índole impecável, padrões estéticos e morais idealizados na Grécia e que perpetuam até hoje.
Apesar desses padrões serem exaustivamente repetidos, eles também são questionados em propostas subversivas (e muito inteligentes) como o filme “Eu sou a lenda”, em que o herói solitário, Robert Neville (Will Smith), é um médico negro que tenta salvar sua nação de um vírus causador de mutações na ilha de Manhattan – representação hipônima dos Estados Unidos. 
Um herói nessas condições, em um contexto de ascensão do primeiro presidente negro do país, não pode ser mera coincidência. Aliás, não foram só os norte-americanos que herdaram a mania grega de representar a nação na pele de um personagem. Representações hipônimas são recorrentes na construção de personagens, como o Carlitos de Charles Chaplin e a conhecida luso-brasileira Carmem Miranda. O primeiro, numa versão mais satírica do homem que sente a constante sensação de estranhamento em relação à sociedade moderna inglesa. A segunda, funcionando como uma “propaganda” do Brasil tropical, com suas roupas coloridas, músicas e danças alegres, Hollywood afora.
Mas vamos pensar novamente naqueles padrões mencionados anteriormente: o homem forte, loiro e de índole impecável que representa sua nação. Se já não tivesse mencionado de quem estamos falando, bem que poderíamos associar a descrição ao nosso querido Steve Rogers. Isso mesmo, o Capitão América.
                Isso mostra como a LITERATURA se relaciona com nosso MUNDO, influenciando a sociedade em diversos aspectos. Você certamente já ouviu falar da Torre Eiffel, sim, o monumento localizado na cidade de Paris. Acontece que, em uma das várias mortes de Aquiles, quem dispara a flecha do assassinato é Páris. Essa flecha, muito certeiramente, acerta em cheio o calcanhar do herói, não por sorte, mas porque fora conduzida pelo deus Apolo. Pesquisando na internet ou em qualquer outra fonte qual a altura da Torre Eiffel, você encontrará duas medidas mais populares: 324m ou 333m. Em ambos os casos, a soma dos algarismos resultará em nove. Nove é exatamente o número de musas que vivem no Monte Parnaso, o mesmo onde vive o deus Apolo.
                Outro aspecto de grande relevância para essa análise é o local onde está localizada a Torre, o Campo de Marte. Marte é mais conhecido por ser o deus da guerra, mas poucos se lembram de que ele é também o pai do Cupido, personagem famoso por também lançar FLECHAS. Mais uma vez, a referência ao objeto causador da morte de Aquiles.
Por último, especialmente para você que ainda acredita que tudo isso é coincidência, existe uma réplica da Torre Eiffel na cidade grega de Filiatra, ao sul de Atenas, que também fica muito próxima da cidade de Tróia. Coincidência, não? Aliás, já que estamos engradecendo os legados gregos e mencionei a cidade de Filiatra, note a semelhança: Filiatra – Filiantra – Filantropia. Qual a necessidade dessa menção? Acontece que o surgimento termo “filantropia” é creditado ao imperador romano Juliano que, querendo restituir o paganismo como religião de Roma, inventou um termo equivalente à caridade cristã que transmitisse a mesma ideia de serviço ao próximo. A etimologia da palavra, no entanto, é de origem grega. Mas esse reaproveitamento da cultura grega por parte dos romanos não é mais nenhuma novidade para nós.
E não foram só os romanos que aderiram à essa ideia de assimilação da cultura grega. Já vimos algumas referências modernas a Aquiles, e às epopeias homéricas de forma geral, anteriormente. Outra personagem da Odisseia que é digna de nossa atenção é a formosa Penélope. Penélope era a esposa de Odisseu, que era rei de Ítaca. Tendo Odisseu partido para Tróia, ela ficou em Ítaca com seu filho, ainda bebê, esperando o retorno de seu amado esposo. Mas a demora do retorno de Odisseu começou a encorajar os homens de Ítaca a pressionarem Penélope para que se casasse outra vez, isso porque ela era a dona de toda a riqueza do reino, além de ser uma mulher muito bonita. Mas acontece que, além de muito bonita, ela era muito inteligente e conseguiu pensar em uma estratégia para enganar seus ansiosos pretendentes e poder aguardar o retorno de Odisseu. Ela anunciou que iria se casar novamente, mas somente depois que tecesse uma mortalha para o pai de Odisseu, também conhecida por “tapete de Penélope”. O segredo era que ela tecia o tapete de dia e à noite desfazia todo o seu trabalho, atrasando, dessa forma, o cumprimento de sua promessa. Esse trabalho de tecer e desfazer o tapete à espera do marido transformou Penélope não só em um símbolo de fidelidade, mas também de paciência. Mas se você desconsidera o paganismo da mitologia grega, pode conferir outro símbolo de paciência em Jó 6:11.
Mas isso é a literatura. E no nosso mundo?
No nosso mundo, ou no mundo de nossas infâncias, temos a Penélope Charmosa, originalmente personagem da Corrida Maluca, mas que, com seu sucesso, acabou ganhando seu próprio desenho. Penélope charmosa é uma mulher loira, bonita, rica, sozinha e é muito disputada pelos homens. Interessante... essa história parece já ter sido contada antes. Só há VIII a.C.
Finalmente, depois de toda essa viagem pela cultura grega, aterrissamos em solo Luso para falar sobre outra grande epopeia da humanidade: Os Lusíadas. Ter a qualidade de uma epopeia reconhecida mundial e atemporariamente não é tarefa fácil para um escritor, mas Luís Vaz de Camões, com a nossa humilde Língua Portuguesa conseguiu empreender essa façanha, mais de 1500 anos depois de Homero, com muito engenho e arte. Afinal, estamos falando de uma obra composta por 10 cantos, toda em versos (8816), decassílabos e rimados em esquema de oitava real (ABABABCC). O tema central da obra são as grandes navegações do século XVI, lideradas por Vasco da Gama. Lembrando que o herói épico é sempre uma representação hipônima da sua nação, portanto, apesar de a obra, em alguns momentos, parecer dar destaque a Vasco da Gama, o herói de Os Lusíadas é o povo lusitano. Afinal, a grande empresa da expansão marítima foi resultado do esforço de todo Portugal. Mas falar dessa obra dá muito “pano pra manga”, por isso, vou deixar para um SEGUNDO momento a história que tem como personagem VASCO da Gama. 

Essas são algumas das evidências que nos fazem perceber como as referências literárias adentram em aspectos do nosso mundo e, facilmente, passam despercebidas aos olhos e mentes descuidadas. É possível que essas percepções sejam só mais algumas informações que adquirimos e ficarão inutilizadas em algum canto do nosso cérebro. No entanto, a sensação de encontrar significados em algo antes considerado “vazio”, e mais, por meio da literatura, é uma forma única de dar sentido ao mundo. Ao SEU mundo.


" Sozinhos vamos mais rápido, mas juntos vamos mais longe" Pirola.

Autoria, produção e formatação: Eurípedes Braga

Revisão e sistematização: Mariana Moura

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